Escondida pelas cortinas de palha,
Olhos dourados e sorriso tímido.
Não era possível esquecer ou muito menos se confundir.
Quando olhava para mim, eu me submergia à outra dimensão, lugar onde ninguém jamais esteve.
Doce por dentro e linda por fora.
Assim era Laura Cresut, aquela menina apaixonante que conheci no terceiro ano do colégio.
A sua personalidade, como já descrevi, era de inúmeras qualidades, e sua fé em algo que não se pode ver, a deixava ainda mais bondosa.
Quando cheguei à escola onde estudaria por mais 4 anos, sentei na ultima carteira da segunda fila, para que ninguém notasse minha existência. Mas, uma menina aparentemente quieta se aproximou com a intenção de me conhecer:
-Olá menino, eu sou a Laura e você? Você tem cara de Túlio. Não importa, agora você vai se chamar Túlio.
Eu ri, mas ao mesmo tempo fiquei pensando se todos iriam me receber com tanta alegria assim como Laura fizera.
- Legal te ver Laura, bom, como você disse agora, sou o Túlio, e me desculpe a ignorância, que aula temos hoje?
Foi ali mesmo que achei ter assustado a menina: ela saiu correndo em direção ao seu lugar, pegou a mochila e... Sentou-se na carteira vazia ao meu lado! Logo em seguida me passou todas as aulas da semana, e disse que estava muito feliz em ter-me como amigo.
Passada uma semana, eu já sabia o nome de quase todos da sala, pois Laura fazia questão de falar a todos:
- Oi, esse aqui é o Túlio, meu amigo.
Assim eu começava uma conversa com cada um da minha sala.
Nos recreios, eu ficava praticamente só com o Flet, na verdade seu nome era Joaquim, mas para ficar mais único, queria que só o chamassem de Flet. Ele se dava bem comigo e me tratava como irmão e tantas foram as aventuras que vivemos juntos no colégio... Mas isso é outra história. Voltando o foco para minha amiga Laura, ela passava os intervalos com a sua amiga Luma, que usava óculos e tinha sardas no rosto.
Passaram se dias, semanas, meses, até que o 4° ano chegou. Foi um ano muitíssimo agitado para a família da Laurinha, pois sua irmã havia se desviado da Igreja que eles pertenciam, e a minha amiga afirmava que isso traria só sofrimento para todos. Eu não sabia o que fazer para ajuda-la pois não conhecia as suas crenças, mas comecei a ser mais gentil com ela, tentando ouvir tudo o que ela tinha para dizer. No segundo semestre do quarto ano, a irmã de Laura Cresut teve problemas psicológicos, tendo que se tratar e tomando altas doses de remédios. Na última semana de aulas, percebi o sorriso no rosto da que me chamava de Túlio, ao chegar dizendo:
-Ela voltou! Está seguindo Jesus, voltou para a igreja!
Eu fiquei realmente aliviado, mesmo não sabendo quem era o tal Jesus, mas sabia que isso significava uma trégua no sofrimento dos Cresut.
As férias foram longas para mim, pois fiquei com a pergunta "Quem é Jesus?" em minha cabeça, e não tinha coragem de perguntar ao meu pai, pois ele era muito bravo, e só gostava do meu irmão mais velho, pois "ele orgulhava a família" e eu, por ser pequeno, não tinha nenhuma importancia para meu ele, mas minha mãe me amava e era querida comigo, porém acho que não conseguiria responder minha pergunta.
Cheguei na segunda feira (era dia 21 de Janeiro, me lembro bem), me aproximei de Laura e perguntei quem era o tal Jesus. Ela riu e prometeu me contar no recreio, e quando este chegou, ela disse:
- Vamos começar pelo seguinte Tulinho, quem criou a Terra?
Eu permaneci em silêncio por uns instantes e respondi que fora uma explosão que causara o mundo.
- Negativo. Quem criou a Terra foi um ser sobrenatural. Já pensou, por exemplo, quem seria tão magnífico em criar milhões de células, ossos, músculos e órgãos, assim como aprendemos ano passado?
Respondi que só alguém muito esperto para criar tudo, realmente.
- Então! O ser sobrenatural é Deus, quem criou tudo que existe, e não precisou ser criado.
Fiquei extremamente confuso, sem saber o que pensar, mas ela continuou:
- Deus criou a Terra toda, e viu que faltava alguma coisa, e então criou o homem, e da sua costela, veio a mulher. Deus era muito próximo dos humanos, e deixava eles Aproveitarem tudo o que desejassem do mundo, só não poderiam usar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Pensei: "Ótimo, eles viveram felizes para sempre e fim", mas como se adivinhas se meu pensamento continuou:
- O mínimo detalhe é que eles desobedeceram o criador. Eva, a esposa do primeiro homem vivente, ouviu uma serpente, que sendo usada pelo maligno, disse que Deus só não queria que comessem daquele fruto pois ficariam iguais ao Senhor. Eva comeu do fruto e ainda deu para seu esposo. A partir daí começaram os problemas: eles foram expulsos do tal Jardim do Éden, e a cada década, o pecado tomava mais e mais conta do mundo. Deus, percebendo que não havia outra saída, enviou seu único filho para morrer numa cruz, o que ocasionaria o perdão de todos aqueles que pegassem e se arrependessem, mostrando o quão pecadores...
O sinal tocou: ela saiu correndo, me deixando na curiosidade.
No dia seguinte, aguardei ansioso para ouvir mais daquele ser sobrenatural.
Quanto mais eu aprendia mais percebia quanto eu errava na minha vida.
O sexto ano logo chegou, e foi quando começamos a estudar sobre as teorias criacionistas e evolucionistas. Laura, aquela bela menina que continuava sendo minha melhor amiga, debatia o assunto, dando com o auxilio de teses, mais confusão na sala. Eu, que já tinha começado a ler a bíblia que Laurinha me deu, ajudei nas suas perguntas e questionamentos, interrogando o por que o criacionismo era considerado incorreto na escola. Foi um ano feliz e agitado, pois agora havíamos, sem querer, chamado a fúria da professora de ciências, que era a favor do evolucionismo, para nós.
As férias do começo do sétimo ano foram as mais tristes, pois eu sabia que poderia mudar de cidade a qualquer momento, mas prometi que não contaria para Lala, que agora estava mais bonita em suas fotos.
Ano triste para mim, e alegre para a turma, que sabia que no fim do ano iria para um passeio maravilhoso. No dia anterior ao evento eu peguei o número de celular da Laura, e ela o meu, mesmo sem entender a minha apreensão. Dei um abraço apertado nela, sem me importar com os cochichos, apenas esperando que um dia a reencontrasse.
Sai da escola.
Os anos foram passando, mas eu nunca esqueci o rosto formoso de Laura Cresut. Eu me tornei missionário, e fui enviado para a Ásia. Cheguei ontem a noite, e vim junto com meu amigo Flet, que também havia se tornado pastor.
Cheguei em uma igrejinha que ficava dentro de uma cidade grande e muito importante do continente. Entramos, cumprimentam os asiáticos e eles indicaram a casa da pastora, que não tinha marido e morava com sua mãe. Quando vi, lá ao longe:
Escondida pelas cortinas de palha,
Olhos dourados e sorriso tímido.
Não era possível esquecer ou muito menos se confundir.
Quando olhava para mim, eu me submergia à outra dimensão, lugar onde ninguém jamais esteve.
Doce por dentro e linda por fora.
Como já deve imaginar, me apaixonei e logo, tornei me esposo daquela que um dia já fui discípulo.
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